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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

CONVERGÊNCIA (QUASE PERFEITA) DE MÍDIA




Um dia, o homem resolveu que a memória do seu tempo deveria ser preservada. Na época, chamada Paleolítica, mais de 10 mil anos antes de Cristo, obviamente devido à falta de material mais adequado, as paredes das cavernas serviram ao propósito almejado pelos nossos distantes ancestrais. Altamira, na Espanha; Lescaux, na França, e aqui nestas sul-americanas plagas, mais exatamente no Piauí, nos parques nacionais de Sete Cidades e da Serra da Capivara o homem gravou, nas cavernas, registros de sua passagem pelo mundo. As pinturas rupestres trazem momentos do cotidiano de uma época perdida na noite dos tempos.
Mas a roda da evolução não para. Muitos milhares de anos depois, egípcios, etruscos, sumérios e outros povos desenvolveram suas técnicas particulares de registrar, para a posteridade, fatos e eventos de sua vida em sociedade. Neste contexto, destacam-se os fenícios, cuja maior contribuição para o mundo ocidental foi a invenção do alfabeto, uma ideia brilhante que usava símbolos para representar os sons, em lugar dos desajeitados hieróglifos e da escrita cuneiforme. Desta forma, a guerra e a paz, a ciência e a superstição, a vida e a morte, quase todo o conhecimento de tempos passados chegaram até nós.
O homem, entretanto, é um animal inquieto e curioso, nunca satisfeito com o que já sabe e procurando desvendar os mistérios que o cercam. Assim, crescem a ciência e o conhecimento, e não foram poucas as mentes que, de um modo ou de outro, colaboraram para a expansão, cada vez maior, do saber. Entre esses, está Johann Gutenberg, considerado o inventor dos tipos móveis e, assim, responsável pelo impulso definitivo na arte de produzir textos impressos. Daí em diante, paulatinamente, o mundo da informação começou a tomar o caminho que chegou aos tempos atuais.
O resto, já sabemos. Vieram os jornais impressos, depois o rádio, a televisão e, mais recentemente, a internet, e a informação espalhou-se pelo mundo, consolidando o que Marshall MacLuhan chamou de aldeia global. Neste ponto, chegamos à expressão-símbolo da comunicação integrada do século XXI: a convergência de mídia.
O que é isso? Bom, no tempo em que reinava absoluto o jornal impresso o mundo parecia andar mais devagar. As notícias chegavam aos destinatários dias, semanas ou meses após partirem do local de origem. A notícia da morte do presidente Abraham Lincoln, por exemplo, levou 13 dias para atravessar o Atlântico e ir dos Estados Unidos à Europa. Mais tarde, as ondas do rádio encurtaram as distâncias, aproximando povos e países. Também é exemplo marcante o fato de os refletores que iluminam a estátua do Cristo no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro, terem sido acesos a partir de um comando elétrico emitido em Roma, por Guglielmo Marconi, no dia 12 de outubro de 1931, às 19 horas e 16 minutos.
No campo da informação, jornal e rádio se completavam. As notícias veiculadas pelo rádio (tal como mais tarde iria acontecer com a televisão) eram lidas dos jornais. Então, surgiu a caixinha mágica: a televisão. Completava-se o círculo da informação: no jornal, líamos; no rádio, ouvíamos e a televisão trouxe, além do ouvir, o ver. Já não eram mais necessárias as asas da imaginação impulsionadas pelo rádio. A partir de então, som e imagem casavam-se para colocar o mundo a um toque dos dedos. Ligava-se a televisão e pronto, lá estavam notícias vindas dos quatro cantos da Terra e, mais tarde, até da Lua.
Mas, como sabemos, a evolução parece não ter limites e, no círculo da informação, um novo elemento surge: a internet, acelerando ainda mais a velocidade da informação.
Aí, meus caríssimos, não teve mais jeito! Os assim chamados veículos de comunicação, que também respondem pelo nome de mídia, uniram-se para encher o mundo de notícias, e o vasto mundo de Drummond ficou pequeno, muito pequeno. A Europa ficou do outro lado da rua, a Ásia, na outra esquina; a Austrália, ali mais adiante. Qualquer evento, em qualquer parte do mundo espalha-se em segundos pelos quatro continentes. Rádio, televisão e internet unem-se para nos trazer, ao vivo (e em cores) o que antes líamos, um ou dois dias depois, nas páginas dos jornais.
A globalização é isso. A aldeia global é isso. O avanço tecnológico é isso.
O que nos reserva o futuro? Difícil dizer. E agora, com a internet, o que podemos esperar? Não sei. Mas sei que tudo isso, e em especial a internet, acabou por matar uma outra mídia – chamemo-la assim. Poucos dela se lembram, talvez apenas os mais velhos, e pouquíssimos a preservam: a carta social, assassinada sem dó nem piedade pelo e-mail, filho da internet. Habituamo-nos à velocidade da vida moderna e não nos damos mais o luxo de sentarmos e escrevermos cartas para aqueles a quem prezamos. Por e-mail, mandamos notícias velozes e sucintas, que nada têm a ver com as mal traçadas linhas do romantismo da carta manuscrita, muitas vezes ansiosamente esperada por dias.
Assim é a vida: para cada coisa que conquistamos, há uma que fica para trás. Os modernos veículos de comunicação unem-se para que nos mantenhamos instantaneamente informados e, nessa convergência, deixamos papel de carta, envelope e selo nos arquivos da memória. É a imperfeição – única – da convergência de mídia. Sinal dos tempos!

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